estr@nho
Olhos semi-cerrados, braço esquerdo apoiado na porta servindo de descanso à minha cara, braço direito com total domínio sobre o volante e o olhar…longínquo…nos confins de um planeta que nunca existiu. O meu subconsciente, sobrecarregado pelo hábito de fazer o percurso até casa, conduz o carro por mim. Há alturas em que o meu olhar, sobressaltado, obriga a um piscar de olhos sucessivos, e as imagens que chegam ao meu cérebro entram em conflito, pois parece que o meu cérebro fica dormente, e os meus pensamentos, os meus voos para outros mundos onde o azul do céu parece não chegar, criam um isolamento, que torna o meu consciente abstracto de qualquer tipo de ideia de realidade.
Acendem-se duas luzes vermelhas intensas à minha frente, toda uma informação percorre o meu corpo. O cérebro ordena ao pé direito que carregue a fundo no travão…os meus pensamentos sobressaltam-se, sinto que não tenho capacidade para mexer um único dedo, quanto mais para travar toda uma massa em movimento. Vejo os carros ao meu lado, todos perfilados, como um batalhão do exército em dia de cerimónia; no espelho, vejo faróis…brancos, vários; tenho ainda tempo para reparar que um dos carros que me antecede tem um médio fundido, criando um género de fraqueza na imagem deste.
Um infinito som de travões inunda os meus ouvidos, todos os meus sentidos estão alertas, as luzes vermelhas, parecem mais intensas; na minha cabeça dá-se uma alusão ao vermelho, ao inferno. Os meus olhos abrem-se com violência, a minha vista ainda desfocada tenta perceber a quanta distância ainda estou do carro da frente…sinto um tremor forte…a minha vista já se adaptou a todo aquele ambiente, tenho o carro parado, não bati e ninguém me bateu, apesar de uma violenta travagem que pareceu demorar horas.
Abro o vidro…calmamente olho para a lua e acendo um cigarro com a consciência de que não sabia no que tinha estado a pensar. Sinto um misto de felicidade e limitação infeliz. Paro em frente a casa e só me apetece continuar a conduzir, sem fim, até que a gasolina se acabe ou chegue ao fim da estrada, pois ao menos enquanto conduzo, não tenho que dar um seguimento propriamente lógico aos meus pensamentos, aí, todo o meu mundo envolvente me pertence: a música que eu oiço, a temperatura que está, a forma como estou, a forma como estou vestido…dentro do meu mundo, sou eu que crio as regras, não uma sociedade marginalizador e que roda à volta do dinheiro.
Abro a porta, saio, entro em casa…só me apetece deitar, dormir e acordar num outro mundo, em que estou com quem eu quero quando eu quero. Deito-me na cama a pensar no acidente que poderia ter tido, inferno…inferno…inferno…são as únicas imagens que me vêem à cabeça. Entretanto…oiço uma mensagem a chegar ao telemóvel, não me mexo sequer, sei que é uma mensagem tua, adormeço num sono leve e agradável, tenho um pequeno sorriso na cara…adormeço contente…porque te lembraste de mim, sei que amas, e que me queres...sei que o meu mundo que é lindo e a vida me corre bem.

1 Comments:
não acredito que voltei a encontrar-te entre páginas soltas, as da web... um abraço gigante, pipa.
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